Imagine um filme que fala de alguns aborrecimentos pelos quais todos nós passamos, mas que a maioria de nós consegue relevar. Uma briga de trânsito que acaba mal (aqueles famigerados crimes por motivo fútil), uma noiva traída, alguém que sofreu assédio psicológico na escola. Agora imagine todas essas situações ampliadas e contadas com um humor negro ímpar. Imaginou? Se não tiver imaginado, Damián Szifrón e os Almodóvar o fizeram e mandaram para a telona como os "Relatos Selvagens".
O filme narra seis contos que não tem ligações reais entre as pessoas de cada história, apenas os motivos são semelhantes em todos: violência e vingança. Dessa feita, teremos a história de alguém que sofria assédio psicológico na escola, foi traído por uma namorado, humilhado numa banca na universidade e que arranja um jeito interessante de se vingar de todas a violências que lhe causaram. Um jeito interessante, igualmente cruel e inesperado. Noutra, existe a chance clara de se vingar de um agiota que destruiu sua família e assediou sua mãe: nada como a comida, fonte de prazeres e também venenos (um cutelo afiado também pode dar conta do serviço...).
Agora, imagine aquelas raivas (e medos) que todos passamos no trânsito por não saber ao certo quem é ou não um motorista irresponsável. Imagine-se ultrapassando um desses irresponsáveis e o xingando. Seu pneu fura numa estrada desértica. O insultado se aproxima. Ele lhe faz mais diabruras do que um "Dênis Pimentinha", você quer se vingar. Mas ambos terminam ardentemente abraçados. O mesmo trânsito nosso de cada dia, que faz algumas pessoas perderem até dois meses de vida preso em congestionamentos e deslocamentos até o trabalho pode fazer com que alguns queiram mandar tudo pelos ares. Quando se trabalha com demolição de grandes construções, está num casamento em crise, ruas mal sinalizadas e seu carro guinchado com frequência, é muito provável que isso aconteça mesmo. Entre aqueles que foram postam ou se colocaram à margem da sociedade, é sempre possível que alguém com tais dons se torne um herói por mera casualidade.
Quem de nós nunca se indignou com um figurão atropelando alguém incauto e saindo impune. Pense por um momento que nosso figurão atropela uma grávida e foge sem prestar socorro. Pense também em seus pais canalhas que decidem proteger o filho por ter feito uma "bobagenzinha", afinal "ele é só uma criança". Junte à nossa receita um jardineiro paupérrimo, um advogado ganancioso e um inspetor de polícia corrupto. Como calha de acontecer na vida real, a pá de cal recairá sobre quem sempre revirou o jardim e ninguém nunca havia visto até esse momento fatídico. Dá última história nada falarei ou dica darei, observe só a foto e já lhe fica a dica.
Quem dera essas histórias fossem apenas imaginação, eles abundam nosso quotidiano e já quase não nos causam mais mal-estar. Passa a ser como as formas de violência variadas fossem mais um dos componentes das paisagens urbanas, como se as vítimas dessa violência devessem sofrê-la e nada pudessem fazer para reagir a ela senão com extremismo. Refletir sobre o filme talvez ajude a ver como alguns banalidades nos tiram do sério, como ter dinheiro pode livrar muitos de maus lençóis (embora esse dinheiro jamais repare os danos causados a quem perdeu o bem mais precioso que tinha e que não pode ser medido em cifras), como a burocracia e o próprio "sistema" nos tiram tempos preciosos e o sossego necessário para viver mais tranquilamente. Enfim, parece que o que precisamos imaginar seria um mundo no qual tais acontecimentos selvagens não precisassem ocorrer. Mais do imaginar, todo dia é uma chance nova de fazer tal mundo mais civilizado e menos selvagem...

Comentários
Postar um comentário