Pular para o conteúdo principal

O Exército de um Homem Só

Há pouco tempo tive em minhas mãos um livro de Moacyr Scliar, "A mulher que escreveu a Bíblia", cujo recorte na  era tão boa que resolvi comprar para presentear alguém. Como a pessoa morava longe, não pude fazer o famoso pedido: "você me empresta o livro depois de o ter lido"? Nada que o tempo não podia resolver, pois me chegou às mãos "O Exército de um homem só", um livro de bolso com uma narrativa ágil e em retrospectiva.


Mayer Guinzburg, de família judia imigrante da Rússia, desde muito pequeno se mostrava um rebelde. Se recusava a comer, vivia de migalhas. Até que um dia pediu carne de porco. Uma verdadeira blasfêmia para sua comunidade. Cresceu e não mudou. Tinha um ideal. Queria mudar o mundo. Queria construir a Nova Birobidjan, uma sociedade justa e livre de opressão. Tenta primeiro com seus amigos. Fracassa. Casa-se. Leva uma vida de pequeno burguês. Se revolta. Foge de casa. Constrói sua sociedade justa e livre de opressão na companhia de seus inseparáveis homenzinhos (que só ele vê) e de três companheiros bichos, sendo que a dissimulada da galinha é a que ele mais se esforça para gostar, faz autocrítica, mas dela não consegue gostar. É atacado por arruaceiros. Vive uma aventura. Volta pra casa. Se torna empresário. Realiza seu ideal "igualitário" na empresa. Vive nova aventura. Negligencia tudo. Fracassa. Volta para as terras onde construíra sua Nova Birobidjan. Faz ali outra revolução. Mas o corpo já não tinha o mesmo vigor. Era 1970, o Capitão Birobidjan, seu apelido que não mencionei até agora e que lhe indico ler o livro para saber como Mayer o conseguiu, navega para o desconhecido.



Durante muito tempo Mayer se inspirou em ideias socialistas, queria que sua filha se chamasse Rosa, em homenagem à Rosa de Luxemburgo, mas sua esposa não o permitiu. Constantemente fazia autocríticas. Queria construir sua sociedade justa. Os animais também deveriam ser tratados de maneira digna, mesmo a companheira galinha, por quem ele nutria pouco apreço, o mesmo ocorria com o feijão. Entre desilusões com o que Stálin fez na União Soviética, Mayer, um tanto quanto esquizofrênico, tentou realizar sua ideia de sociedade justa em sua grande empresa. Tentou agradar seu círculo judaico com os nomes dos empreendimentos, tentou agradar a si mesmo com a administração do negócio e trato dos trabalhadores. No fim, acabou sendo uma espécie de Dom Quixote, mas sem um Sancho Pança que lhe acompanhasse os desvarios. Nunca conseguiu convencer os que lhe eram próximos de seus ideais, tampouco os animais, que não poderiam compreendê-lo. Suas desventuras, e os próprios eventos históricos que nos traz tanto da imigração judaica para o Sul do Brasil (especialmente Porto Alegre) e as desventuras do povo judeu valem a leitura.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Silmarillion

Acredito que muitos já conhecem o Hobbit ou o Senhor dos Anéis, mas quantos conhecerão o mais antigo e provavelmente o mais engenhoso livro de J.R.R. Tolkien : O Silmarillion? Poucas vezes li um livro de fantasia com tamanha riqueza de detalhes como esse. Aulë (um dos Valar) se prepara para destruir os "pais dos anões"

O Processo

Poucos livros são tão enigmáticos quanto "O Processo" de Fraz Kafka . Li esse livro apenas uma vez e até hoje consigo ainda me lembrar de alguns detalhes da estória. Impressionante como K. se vê num enredo de difícil compreensão não só para ele quanto para qualquer um de nós.

O quarto de Jack

Alguns filmes evocam em nós sentimentos dos mais variados. Podemos nos sentir tanto fortes quanto impotentes, alegres ou tristes, senão um misto de emoções. O quarto de Jack com certeza é um desses filmes. Há grandeza e pequenez humana são no filme retratadas de uma maneira sutil e impactante. Em meio há turbulências e maldade é possível encontrar a pureza e mantê-la, acolhê-la, fazer dela uma luz em meio à escuridão. Essa mesma pureza permite que se escape, que se conheça um novo mundo e que também se reencontre com um mundo há muito esquecido. Choques com um mundo era apenas visto pela televisão se fazem muito fortes para alguém que estava acostumado a só imaginar mundos distantes. Para quem já havia vivido no mundo antes de ser tirada dele à força, voltar pode não ser tarefa das mais fáceis. Algumas separações forçadas mudam a vida até de quem ficou fora da vista de quem sofre a maldade do algoz. O tempo cronológico também é desafiado de maneira muito interessante ...