Outro dia escrevi algo sobre como Saramago narra a morte de Ricardo Reis. Hoje falarei um pouco de seu livro Caim. Falar bem pouco para evitar revelar partes da história que frustrem possíveis leitores.
Com seu humor e sagacidade característicos, além daquela escrita da língua portuguesa tão própria, Saramago mostra como Deus estaria diretamente envolvido na morte de Abel. Mais do que isso, Ele seria cúmplice de Caim em seu delito. Devido a seu crime, Caim parte, se torna errante pelo mundo e pelas histórias e personagens bíblicos, como Josué e Jó. Soluciona, por exemplo, dúvidas de com quem o terceiro filho de Adão e Eva se casou. Sofre e se indigna com as desventuras que alguns personagens sofreriam pela vontade Deus quanto pela maldade que outros cometiam tanto dizendo ser em nome de Deus quanto da própria ganância deles. Não deixa de ser marcante a presença também de Lilith na vida de Caim.
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É um livro grandioso em suas poucas páginas e nas questões que traz. Não deixará de causar algum desconforto em pessoas mais religiosas. O que, contudo, não impede a leitura, nem deixa de lado a grandeza das tentativas de preenchimento de lacunas bíblicas feitas por Saramago. Não deixa de ser interessante o comportamento de Caim na Arca da Noé e todo o burburinho que ele ali causa. Seus questionamentos são tão interessantes quanto os feitos por Machado de Assis em seu conto "Na Arca".
Não deixa de ser curioso que o autor atribua a maldade dos homens a Deus. Podemos igualmente questionar que, já que os homens põem muito de si na religião, não será também o caso de colocarem suas características negativas no plano divino e delas se eximirem quando praticam maldades contra seus semelhantes?

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